A Pensão de Maria Júlio

No início do povoado, a primeira pessoa que oferecia hospedagem aos viajantes quando de passagem por Boa Saúde era o Senhor Antônio Badamero Sacca, cuja residência, um casarão de taipa, com muitos quartos, localizava-se onde existiu o grupo escolar e, atualmente, está situada a agência dos Correios. Como se dizia naquela época, ele oferecia “arrancho”, principalmente aos tropeiros.

Era comum, naquela época, os tropeiros que iam ou retornavam do sertão transportando mercadorias, fazerem uma parada para descançar. Tangiam uma tropa de três ou mais burros mulos e, aqui, acolá, obrigatoriamente, tinham que se “arranchar” num lugar que oferecesse comida, dormida e condições para “arriar” a carga e cuidar dos animais. Boa Saúde era um desses lugares.

No início da década de 1930, esse tipo de hospedagem ficava por conta do Senhor José Calazans Ribeiro, que tinha sua residência localizada onde atualmente existe o Clube 2 de Fevereiro, na Praça Nossa Senhora da Saúde.

Em 1935, o Senhor José Elias de Souza, conhecido como Zé Júlio, com sua família, fixou residência em uma casa localizada na Rua de Baixo, atual Heronides Câmara, onde começou, também, a oferecer “arrancho” aos tropeiros. Aos poucos, a procura foi aumentando, ao ponto dele ter que comprar uma casa maior para acomodar a quantos procurassem hospedagem.

Todos os membros da família participavam dos trabalhos da pensão, mas uma das filhas de Seu José Júlio, por nome de Maria Júlio, era quem mais se dedicava, assumindo uma das tarefas mais difíceis: auxiliar sua mãe na cozinha.

Com o falecimento de Seu José Júlio, o comando da pensão ficou sob a responsabilidade de Maria Júlio, contando com a ajuda de suas irmãs.Os anos foram se passando e mudando a clientela. O transporte de mercadorias, até então feito pelos tropeiros, passou a ser realizado pelos caminhões. A figura do tropeiro foi substituída pela do feirante, que dada a rapidez do novo meio de transporte, dispensava hospedagem durante a viagem. A pensão, que passou a ser chamada de Pensão de Maria Júlio, perdeu a clientela que lhe deu origem e viveu um período de pouca movimentação.

Anos depois, a partir de 1953, quando Boa Saúde passou a ser município, pessoas que vinham à cidade a serviço da Prefeitura, passaram a fazer parte da sua clientela, inclusive como mensalista. Outra forma de manutenção da pensão era o fornecimento de refeições nos dias de feira. E como na época não existia nenhum bar na localidade, nos dias de feira e nas principais festas não faltava uma cervejinha gelada, uma cachacinha e “tira-gostos” variados, muitas vezes ao som da sanfona de Dioclécio ou Vital.

Já se passaram mais de 65 anos, desde o início da pensão até hoje, e Maria Júlio, aos 72 anos de idade, está cansada, mas “não arredou o pé”. Continua firme, apesar da pouca frequência e das dificuldades que enfrenta.

A época dos tropeiros passou, assim como passou a dos feirantes e a das pessoas que ali se hospedavam quando a serviço da prefeitura ou por outro motivo qualquer. Muitas mudanças contribuíram para que isto acontecesse: as rodovias asfaltadas, substituíram as estradas de terra; os ônibus diários tomaram o lugar do “misto” que fazia a “linha” duas, três vezes por semana; o automóvel e o telefone encurtaram as distâncias. As coisas não são como eram antes. Os tempos não são os mesmos. Hoje, como no passado, somente o propósito e a vontade de Maria Júlio, de bem servir à comunidade.
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O texto foi extraído do livro Boa Saúde: Origem e história escrito por José Alai e Maria de Deus. Algumas imagens são dos blogs que José Alai mantinha. O objetivo dessa postagem é tão somente conservar nossa história.

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